A MÚSICA DO AMBIENTE PODE INFLUENCIAR O QUE VOCÊ ESCOLHE COMER
Experimentos apontam maior preferência por opções saudáveis quando refeições são acompanhadas por músicas de baixa intensidade
Bruna Valle
21/09/2026
Na hora de escolher o que comer, o som que está tocando ao fundo pode ter mais influência do que parece. Uma pesquisa realizada por cientistas da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, na China, indica que músicas mais lentas e relaxantes podem favorecer decisões alimentares consideradas mais saudáveis.
O estudo reuniu quatro experimentos. O primeiro foi realizado em uma cafeteria universitária de verdade. Os demais reproduziram situações de restaurantes em ambientes controlados.
A proposta era entender se as características da música poderiam interferir na maneira como as pessoas avaliam e escolhem alimentos.
O que aconteceu?
Durante oito dias, a cafeteria alternou entre músicas classificadas pelos pesquisadores como de baixa ou alta excitação.
Ao todo, foram vendidos 911 itens. Nos períodos em que as músicas eram mais tranquilas, 18,94% das compras eram de alimentos classificados como saudáveis. Quando a trilha sonora era mais estimulante, esse percentual caiu para 13,59%.
A diferença chamou a atenção porque a música não tinha relação direta com os alimentos disponíveis. Ainda assim, o ambiente pareceu acompanhar a decisão tomada pelos consumidores.
O ambiente pode funcionar como uma pista
Uma das explicações consideradas pelos pesquisadores é baseada na chamada teoria da congruência. De forma simples, a ideia é que as pessoas tendem a considerar mais adequadas as escolhas que combinam com o ambiente ao redor.
Nesse contexto, uma música tranquila poderia criar uma atmosfera associada a calma e bem-estar. Alimentos percebidos como mais saudáveis poderiam, então, parecer mais coerentes com aquele cenário.
Já sons mais intensos podem aumentar a sensação de estímulo e agitação durante a refeição.
Resultado apareceu em outros testes
Os cientistas fizeram mais três experiências para verificar se o padrão encontrado na cafeteria poderia ser reproduzido.
Em um dos testes, participantes analisaram um cardápio de almoço saudável enquanto ouviam músicas de hip-hop com diferentes níveis de excitação. A intenção média de consumir os pratos foi de 6,08 pontos entre aqueles que ouviram as versões mais tranquilas, contra 5,56 no grupo exposto às músicas mais estimulantes.
Outro experimento utilizou jazz em um restaurante simulado. A intenção de consumo chegou a 6,02 pontos com a música de baixa excitação, enquanto ficou em 4,40 com a versão mais estimulante.
Na última experiência, os pesquisadores acrescentaram ruídos de fundo. Mesmo nesse cenário, a intenção média de consumo foi maior entre os participantes que ouviram música tranquila.
Não é só apertar o play
Os pesquisadores também analisaram características que ajudariam a definir uma música como mais relaxante. Entre elas estão ritmo mais lento, volume mais baixo, sons menos agressivos e uma harmonia considerada mais agradável.
A hipótese é que esse conjunto de características ajude a construir uma determinada atmosfera sem que o consumidor necessariamente perceba de forma consciente.
Música não determina a escolha
Apesar dos resultados, o estudo não mostra que uma playlist calma fará alguém abandonar automaticamente um alimento menos saudável.
Em parte dos experimentos, os pesquisadores avaliaram principalmente a intenção de consumo, e não aquilo que os participantes efetivamente comeram. Além disso, a escolha alimentar depende de diversos outros fatores, como fome, preferência pessoal, preço e disponibilidade.
O trabalho, portanto, aponta para uma influência sutil do ambiente: a música pode ser mais uma das informações que o cérebro utiliza ao tomar uma decisão diante de um cardápio.


