A NOVA CORRIDA PELO OURO
BANCOS CENTRAIS, CONFLITOS GLOBAIS E O RETORNO DO METAL COMO PROTEÇÃO SISTÊMICA
João Carlos
29/12/2025
A retomada do interesse global pelo ouro começou a se desenhar de forma mais consistente a partir de meados de 2024, quando um conjunto de fatores deixou de atuar de forma isolada e passou a produzir efeitos combinados sobre o sistema financeiro internacional. A persistência de conflitos armados, o aprofundamento das disputas entre grandes potências econômicas e a crescente incerteza em torno das políticas monetárias expuseram fragilidades estruturais que vinham sendo parcialmente mascaradas nos anos anteriores.
Nesse período, sinais de esgotamento da normalização monetária, somados ao aumento da volatilidade cambial e à ampliação das sanções econômicas como instrumento geopolítico, levaram investidores institucionais e autoridades monetárias a reavaliar estratégias de proteção de longo prazo. O ouro voltou a ser tratado não como ativo especulativo, mas como resposta racional a riscos que deixaram de ser episódicos e passaram a influenciar decisões econômicas estratégicas.
Esse movimento ganhou tração à medida que bancos centrais passaram a atuar de forma mais visível no mercado. A recente ampliação das reservas de ouro pelo Banco Central do Brasil insere o país nesse contexto, alinhando-o a uma tendência já observada em diversas economias ao redor do mundo, especialmente entre nações que buscam reduzir vulnerabilidades externas e diversificar seus instrumentos de reserva.
Conflitos e disputas que pressionam o sistema global
O atual movimento em direção ao ouro é impulsionado por tensões que afetam diretamente comércio, energia, moedas e fluxos financeiros internacionais.
A guerra entre Rússia e Ucrânia, ainda sem solução definitiva, continua impactando cadeias globais de energia, grãos e fertilizantes e inaugurou uma era de sanções econômicas em larga escala, com congelamento de reservas internacionais e ativos soberanos — um precedente que passou a preocupar autoridades monetárias de diversos países.
No Oriente Médio, o conflito entre Israel e o Hamas, somado às tensões regionais envolvendo Irã, Hezbollah e o Mar Vermelho, elevou riscos logísticos e energéticos, afetando rotas comerciais estratégicas e pressionando preços globais.
Paralelamente, a disputa estrutural entre Estados Unidos e China se aprofundou, extrapolando o comércio e alcançando áreas sensíveis como tecnologia, semicondutores, inteligência artificial e controle de matérias-primas críticas. Essa rivalidade tem acelerado um processo de fragmentação econômica global, com blocos comerciais cada vez mais definidos.
Somam-se a esse quadro eleições polarizadas em economias centrais, níveis elevados de endividamento público e questionamentos crescentes sobre a sustentabilidade fiscal de países desenvolvidos. O resultado é um ambiente em que decisões políticas têm potencial imediato de gerar choques financeiros globais.
Nesse contexto, o ouro reassume um papel estratégico por ser um ativo fora do alcance direto de sanções, disputas cambiais ou decisões unilaterais de governos, funcionando como reserva de valor em um mundo no qual previsibilidade se tornou exceção.
Dívidas públicas elevadas e a erosão da confiança monetária
Além das tensões geopolíticas, o avanço da chamada nova corrida pelo ouro está diretamente ligado ao crescimento acelerado das dívidas públicas e à percepção de esgotamento dos instrumentos tradicionais de política monetária. Em diversas economias centrais, o endividamento soberano atingiu níveis elevados, limitando a capacidade dos governos de responder a crises sem recorrer a estímulos fiscais ou monetários prolongados.
Nos Estados Unidos, Europa e Japão, a combinação entre déficits persistentes, envelhecimento populacional e custos crescentes de financiamento levantou dúvidas sobre a sustentabilidade de longo prazo das contas públicas. Mesmo em cenários de crescimento moderado, o peso da dívida tende a pressionar políticas de juros mais baixos ou estímulos contínuos, alimentando preocupações inflacionárias e distorções cambiais.
Ao mesmo tempo, os bancos centrais operam em um ambiente mais restritivo. Após anos de expansão monetária intensa, balanços inflados e programas de compra de ativos, a capacidade de controlar a inflação sem provocar desaceleração econômica severa tornou-se mais limitada. Mudanças frequentes de discurso e revisões de metas contribuíram para uma perda gradual de previsibilidade das políticas monetárias.
Esse cenário reforça a percepção de que moedas fiduciárias estão cada vez mais expostas a decisões políticas. Para gestores de reservas e investidores institucionais, o risco não está apenas na inflação imediata, mas na diluição do valor real da moeda ao longo do tempo.
Nesse contexto, o ouro volta a ser visto como um ativo neutro, sem risco de crédito soberano e independente de metas de inflação. Em um ambiente de endividamento elevado e confiança monetária fragilizada, o metal funciona como contrapeso a um sistema financeiro cada vez mais baseado em expectativas futuras.
“Quando o dinheiro perde credibilidade, o ouro recupera protagonismo.”
Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates
Fonte de publicação: Financial Times e LinkedIn oficial de Ray Dalio, em análises sobre ciclos de dívida, política monetária e proteção de capital.
Metais além do ouro ganham tração estrutural
Embora o ouro lidere o movimento atual como reserva de valor, a busca por outros metais segue uma lógica recorrente: em períodos de transição tecnológica e reorganização econômica, os insumos básicos da infraestrutura voltam ao centro das decisões estratégicas.
Ciclos anteriores de industrialização acelerada sempre elevaram a demanda por metais essenciais. O cenário atual dialoga com esses períodos, impulsionado pela transição energética, pela digitalização e pela reconfiguração das cadeias produtivas globais.
A prata ocupa hoje papel relevante na produção de painéis solares, equipamentos eletrônicos e aplicações médicas, conectando a agenda energética a um metal historicamente associado tanto à moeda quanto à indústria.
O cobre reaparece como pilar da eletrificação moderna. Redes de transmissão, carros elétricos, data centers e infraestrutura urbana dependem diretamente do metal, cuja oferta enfrenta limitações diante da demanda crescente.
Já lítio, níquel e terras raras assumem papel estratégico semelhante ao do petróleo no século XX. Essenciais para baterias, sistemas de defesa, tecnologia de ponta e armazenamento de energia, esses metais passaram a integrar disputas geopolíticas e políticas industriais nacionais.
Diferentemente de ativos financeiros, esses recursos não podem ser ampliados por decisões de política monetária. A escassez física impõe limites reais, reforçando seu valor estratégico em um mundo que volta a priorizar ativos tangíveis.
Investidores seguem o movimento institucional
Ao longo do tempo, movimentos coordenados de bancos centrais funcionaram como sinal para o mercado. Em diferentes ciclos, decisões institucionais anteciparam mudanças relevantes no comportamento dos investidores.
A atual ampliação das reservas de ouro por autoridades monetárias reativa esse mesmo mecanismo. Gestores de fundos, family offices e investidores individuais passaram a buscar exposição ao metal e a outros ativos reais como forma de acompanhar estratégias de proteção adotadas no topo do sistema financeiro, especialmente em cenários de incerteza prolongada.
Nos últimos meses, cresceu a procura por ETFs lastreados em ouro, fundos especializados em metais e, em alguns mercados, até por ouro físico, movimento semelhante ao observado em períodos anteriores de elevada instabilidade financeira.
Para o pequeno investidor, esse comportamento não sugere imitação automática nem apostas concentradas. Historicamente, o ouro cumpre um papel complementar, funcionando como instrumento de preservação patrimonial e amortecedor de volatilidade. A lógica predominante não é a de ganhos rápidos, mas a de equilíbrio e proteção dentro de uma carteira diversificada.
Um sinal claro do nosso tempo
A revalorização do ouro e de outros metais não representa um retorno ao passado, mas a adaptação do sistema financeiro a um novo ciclo. Em um ambiente marcado por endividamento público elevado, fragmentação geopolítica crescente e políticas monetárias sob pressão estrutural, ativos reais voltam a ocupar espaço central nas estratégias de proteção.
Essa tendência tende a moldar o comportamento de bancos centrais, gestores e investidores ao longo de 2026 e dos próximos anos. O ouro, nesse contexto, não funciona como promessa de ganho extraordinário, mas como elemento de estabilidade em um sistema cada vez mais exposto a choques políticos, fiscais e monetários. Sua relevância está menos na valorização imediata e mais na capacidade de atravessar ciclos quando a confiança nos instrumentos tradicionais se torna mais frágil.
“O aumento das reservas de ouro reflete a busca por segurança em um sistema financeiro cada vez mais fragmentado.”
Relatório Anual do Banco de Compensações Internacionais (BIS)



