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CHUVA PREVISÍVEL, COLAPSO EVITÁVEL

POR QUE SÃO PAULO NÃO SUPORTA O QUE SEMPRE FEZ PARTE DO SEU CLIMA

João Carlos

15/01/2026

Placeholder - loading - Crédito da imagem: ilustração gerada por inteligência artificial.
Crédito da imagem: ilustração gerada por inteligência artificial.

Por Redação Antena 1

A cidade de São Paulo voltou a enfrentar fortes impactos provocados por chuvas intensas entre ontem e hoje. O temporal atingiu diferentes regiões do estado, provocando alagamentos, quedas de árvores e interrupções no fornecimento de energia. Em Taubaté, no interior paulista, uma mulher morreu e um homem ficou ferido após a queda de uma árvore. Com esse registro, o número de mortes relacionadas às chuvas no estado já chega a dez.

A cada verão, a cidade e outras regiões do estado revivem um roteiro conhecido: pancadas de chuva intensas, alagamentos recorrentes, lixo espalhado pelas ruas, quedas de árvores, interrupções no fornecimento de energia e transtornos generalizados. A explicação oficial costuma seguir o mesmo caminho, com referências a “eventos climáticos extremos” ou a supostas mudanças abruptas no padrão do clima. O problema é que essa narrativa não se sustenta quando confrontada com dados históricos e critérios técnicos consolidados.

São Paulo sempre foi uma cidade de verões chuvosos. As precipitações concentradas em poucas horas fazem parte do regime climático subtropical da região há décadas e constam, inclusive, das séries históricas utilizadas no planejamento urbano e no dimensionamento de sistemas de drenagem. Não se trata de um fenômeno novo nem inesperado.

Quando uma cidade entra em colapso diante de um comportamento climático recorrente, o diagnóstico deixa de ser meteorológico e passa a ser estrutural.

O que caracteriza, de fato, um evento extremo

Na climatologia e na engenharia hidrológica, um evento extremo é aquele estatisticamente raro, situado fora dos parâmetros históricos considerados nos projetos urbanos. São chuvas associadas a tempos de retorno elevados, capazes de exceder sistemas corretamente dimensionados mesmo quando mantidos de forma adequada.

Em São Paulo, porém, os alagamentos se repetem nos mesmos locais, com frequência anual, em volumes semelhantes. Esse padrão indica não uma exceção climática, mas a perda progressiva da capacidade de resposta da infraestrutura urbana.

Chuvas previsíveis encontram uma cidade despreparada.

Infraestrutura degradada, impacto ampliado

O desempenho de uma cidade diante da chuva depende menos do volume precipitado e mais da condição de seus sistemas. Galerias pluviais obstruídas, córregos sem desassoreamento, ocupação de várzeas, redução de áreas permeáveis e ausência de reservatórios de retenção diminuem drasticamente a capacidade de escoamento.

Durante décadas, a manutenção urbana — limpeza de bueiros, inspeção de redes subterrâneas, manejo preventivo da arborização — foi parte da rotina administrativa. São ações pouco visíveis, que não rendem inaugurações nem manchetes, mas são decisivas para o funcionamento da cidade. A redução sistemática dessas atividades transforma chuvas comuns em episódios de grande impacto.

Apagões e uma rede elétrica vulnerável

Outro fator recorrente nos períodos chuvosos é a instabilidade no fornecimento de energia. A manutenção de redes aéreas extensas em áreas densamente arborizadas amplia o risco de interrupções, sobretudo em dias de vento e chuva.

A discussão sobre o enterramento da fiação elétrica atravessa sucessivas administrações, mas avança lentamente. Enquanto isso, quedas de árvores seguem provocando apagões previsíveis, que não podem ser atribuídos exclusivamente a fenômenos naturais.

Comparações inevitáveis

Grandes cidades ao redor do mundo enfrentam regimes de chuva tão intensos quanto — ou mais intensos do que — os de São Paulo. Em muitos desses centros urbanos, investimentos contínuos em drenagem profunda, retenção temporária de água, manutenção rigorosa e redes elétricas subterrâneas reduziram significativamente os impactos.

Nesses casos, a chuva continua caindo. O colapso, não.

A diferença está nas escolhas feitas ao longo do tempo.

O risco das narrativas que normalizam o problema e da explicação genérica

Atribuir falhas crônicas a “eventos climáticos” — seja por parte de setores da imprensa, de agentes públicos ou de prestadores privados — desloca o foco do debate público. Em vez de discutir planejamento, manutenção e investimentos estruturais, transfere-se a responsabilidade para um fator externo, difuso e de difícil contestação.

Esse movimento tem um efeito preocupante: normaliza a precariedade. Alagamentos, apagões e interrupções passam a ser tratados como inevitáveis, quando não são.

Reconhecer a existência de mudanças climáticas globais não elimina a necessidade de enfrentar problemas locais antigos. Uma coisa não substitui a outra.

A pergunta que precisa ser feita

A questão central não é se choveu muito, mas por que uma metrópole do porte de São Paulo não consegue absorver chuvas que sempre fizeram parte de seu regime climático. A resposta passa por escolhas administrativas, prioridades orçamentárias e pela continuidade, ou não, de políticas públicas estruturantes.

Chuvas de verão continuarão a ocorrer. Isso é um dado da natureza. O que não pode continuar é a ausência de uma estratégia consistente de drenagem, manutenção urbana e modernização da infraestrutura, frequentemente substituída por explicações genéricas.

Cidades preparadas não temem chuvas conhecidas.

Cidades despreparadas recorrem ao clima para justificar o abandono.

Esse é o debate que São Paulo precisa enfrentar, com dados, engenharia e responsabilidade pública. Uma cidade que convive ano após ano com cenas trágicas e previsíveis não carece de novos discursos, mas de respostas objetivas e ações concretas por parte de quem tem o dever de administrá-la e de proteger seus moradores, que sustentam a máquina pública.

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