COMO FUNCIONA A VENDA DE CATÁLOGOS NA INDÚSTRIA MUSICAL
NEGOCIAÇÕES BILIONÁRIAS ENVOLVEM GRANDES NOMES E TRANSFORMAM MÚSICA EM ATIVO ESTRATÉGICO GLOBAL
João Carlos
11/02/2026
Nos últimos anos, a venda de catálogos musicais tornou-se uma das operações mais relevantes da indústria fonográfica. A informação divulgada pelo site americano TMZ, na noite de terça-feira (10), de que Britney Spears teria negociado os direitos de seu catálogo — sem valores oficialmente confirmados — reacendeu o debate sobre como funciona esse mercado e por que artistas optam por esse tipo de operação.
Ainda sem confirmação formal das partes envolvidas, o episódio se insere em um movimento mais amplo: a transformação da música em ativo financeiro estruturado, cada vez mais presente nas estratégias de investimento e consolidação da indústria global.
O que é, de fato, um catálogo musical?
Um catálogo musical reúne o conjunto de direitos associados às obras de um artista ou compositor. Isso pode incluir os direitos autorais de composição, os direitos editoriais, a propriedade das gravações originais — conhecidas como masters — além da participação em royalties futuros e das receitas provenientes de sincronizações para cinema, televisão, publicidade e outras mídias.
Na prática, porém, os detalhes de cada negociação raramente são divulgados. Para preservar cláusulas contratuais e a privacidade dos envolvidos, as operações costumam vir a público de forma genérica, sob o rótulo simplificado de “venda de catálogo”. Esse enquadramento muitas vezes mascara a complexidade das transações, que podem envolver apenas parte dos direitos ou estruturas híbridas de participação.
Esses ativos geram renda contínua por meio de execuções em rádio, reproduções em plataformas digitais, licenciamentos e usos comerciais diversos. Com o avanço do streaming e a consolidação de dados globais de consumo, a previsibilidade dessas receitas aumentou significativamente, transformando os catálogos em ativos cada vez mais atrativos para investidores institucionais.
Quem compra esses catálogos e por quê? É só o lucro?
Os compradores de catálogos musicais não são colecionadores nostálgicos nem entusiastas culturais. Trata-se, em grande parte, de fundos de investimento e empresas especializadas em gestão de propriedade intelectual, além das próprias grandes gravadoras globais. Grupos como Hipgnosis Songs Fund, Primary Wave, Blackstone e KKR passaram a enxergar músicas consagradas como ativos estratégicos, comparáveis a portfólios imobiliários ou participações empresariais.
Ao mesmo tempo, gigantes da indústria como Sony Music, Universal Music Group e Warner Music Group ampliam seus catálogos para fortalecer posição de mercado, consolidar direitos e ampliar seu poder de negociação global.
Mas a motivação vai além do lucro imediato. Catálogos bem estabelecidos oferecem fluxo de caixa relativamente previsível, sustentado por execuções recorrentes em rádio, streaming e licenciamento audiovisual. Em um cenário de juros baixos e busca por ativos estáveis, a música passou a ser vista como investimento resiliente, capaz de atravessar ciclos econômicos. Além disso, há um componente estratégico: controlar repertórios icônicos significa também controlar seu uso cultural, comercial e midiático, algo que amplia o valor de longo prazo dessas aquisições.
Em outras palavras, trata-se de uma combinação entre retorno financeiro, consolidação de mercado e gestão de relevância cultural. A música, hoje, é simultaneamente arte e ativo institucionalizado.
Por que artistas vendem seus próprios catálogos? É só o lucro?
A decisão de vender um catálogo raramente se resume a “ganhar dinheiro agora”. Em muitos casos, trata-se de uma estratégia financeira estruturada. Para artistas com carreiras consolidadas, a venda pode representar planejamento sucessório, organização patrimonial e simplificação da gestão de direitos autorais — um processo que envolve contratos complexos, arrecadação internacional e acompanhamento constante de licenciamento.
Há também a lógica da antecipação de receita. Em vez de receber royalties distribuídos ao longo de décadas, o artista opta por transformar um fluxo futuro e incerto em um pagamento único, muitas vezes milionário, com liquidez imediata. Esse movimento pode ser interessante em contextos de mercado favoráveis, especialmente quando fundos e gravadoras estão dispostos a pagar múltiplos elevados sobre a receita anual do catálogo.
Questões fiscais também influenciam. Dependendo da estrutura jurídica e do país de residência, a venda pode ser mais vantajosa do ponto de vista tributário do que a manutenção da renda recorrente. Além disso, muitos artistas preferem reduzir a responsabilidade administrativa e transferir a gestão estratégica das obras para empresas especializadas.
Para nomes veteranos, portanto, a venda pode significar estabilidade financeira e organização patrimonial. Para artistas mais jovens, pode representar reposicionamento estratégico. Em ambos os casos, não se trata apenas de lucro, mas de decisão empresarial em um mercado cada vez mais financeiro e institucionalizado.
Grandes vendas que marcaram o mercado
O movimento ganhou força a partir de 2019, quando operações bilionárias passaram a ganhar destaque na imprensa econômica e cultural.
Em 2020, Bob Dylan vendeu seu catálogo de composições para a Universal Music Publishing por cerca de US$ 300 milhões, em uma das negociações mais emblemáticas da década.
No ano seguinte, Bruce Springsteen fechou um acordo estimado em aproximadamente US$ 500 milhões com a Sony, envolvendo tanto suas composições quanto as gravações originais, ampliando o peso estratégico da operação.
Também em 2020, Stevie Nicks vendeu 80% de seu catálogo de composições ao fundo Hipgnosis por cerca de US$ 100 milhões, reforçando a tendência de artistas consagrados transformarem repertórios históricos em ativos financeiros estruturados.
Compra e venda: um mercado de gigantes
Caso Michael Jackson/The Beatles
O mercado de catálogos musicais não é recente, mas ganhou dimensão global quando passou a envolver alguns dos maiores nomes da história da música. Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu em 1985, quando Michael Jackson adquiriu a ATV Music, que incluía os direitos editoriais de grande parte do repertório dos The Beatles. A operação transformou Jackson não apenas em um dos artistas mais influentes de sua geração, mas também em um dos proprietários mais estratégicos da indústria.
Anos depois, a ATV se fundiu com a Sony, formando a Sony/ATV Music Publishing. Em 2016, a Sony comprou a participação restante do espólio de Jackson por cerca de US$ 750 milhões, consolidando uma das transações mais relevantes da história do setor editorial musical.
Esse episódio ajudou a redefinir a percepção de catálogo como ativo de poder cultural e financeiro. Controlar repertórios históricos significa controlar sincronizações, reedições, uso publicitário e exploração global de obras que atravessam gerações.
Madonna e a decisão de manter controle
Se alguns artistas optam por converter patrimônio artístico em liquidez imediata, Madonna segue caminho oposto. A cantora já declarou publicamente que não pretende vender seu catálogo, argumentando que suas músicas são parte inseparável de seu legado e identidade criativa.
Ao manter controle editorial e comercial sobre sua obra, Madonna adota uma posição que contrasta com a tendência predominante do mercado. Em um momento em que fundos de investimento ampliam presença no setor, sua decisão reforça a dimensão simbólica do catálogo como extensão da autoria e não apenas como ativo financeiro.
O que o caso Britney representa

Crédito da imagem: Image Group LA/Disney Channel via Getty Images
A informação de que Britney Spears teria vendido os direitos de seu catálogo à Primary Wave reforça a consolidação de um movimento que vem transformando a indústria musical nos últimos anos. O acordo foi inicialmente divulgado pelo site americano TMZ, que afirmou ter obtido documentos legais indicando que o contrato teria sido assinado no final de dezembro. Até o momento, nem a cantora nem a empresa divulgaram detalhes oficiais da operação.
De acordo com apuração da agência Reuters, fontes próximas à negociação indicaram que o valor estaria em faixa semelhante ao acordo firmado por Justin Bieber em 2023, quando o artista vendeu seus direitos musicais por cerca de US$ 200 milhões à Hipgnosis. Caso essa estimativa se confirme, trata-se de uma das transações mais relevantes envolvendo artistas pop da virada dos anos 2000.
A Primary Wave, que administra catálogos de nomes como Whitney Houston, Prince e Stevie Nicks, ampliaria assim seu portfólio com sucessos que marcaram gerações, incluindo “…Baby One More Time”, “Oops!... I Did It Again”, “Toxic” e “Gimme More”. São obras que seguem gerando receita significativa em streaming, licenciamento e uso audiovisual mais de duas décadas após o lançamento.
A movimentação também ganha dimensão adicional quando considerada a trajetória recente da artista. Spears encerrou em 2021 uma tutela judicial que, por 13 anos, regulou aspectos centrais de sua vida pessoal e profissional. Desde então, sua carreira passou por reconfiguração pública e administrativa, o que torna qualquer decisão patrimonial ainda mais observada pelo mercado.
Mais do que uma simples transação comercial, a venda de um catálogo representa uma mudança na forma como a música é posicionada no mercado global. Obras que nasceram como expressão artística passam a integrar portfólios institucionais, administradas sob lógica de longo prazo.
Ao mesmo tempo, permanece o debate sobre controle criativo e permanência cultural. Em um cenário cada vez mais financeiro, a curadoria — seja editorial, artística ou radiofônica — continua sendo o elemento que define relevância ao longo do tempo. E isso, diferentemente dos direitos autorais, não é algo que se transfere por contrato.



