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Direita brasileira aposta no 'modelo Bukele' para atrair eleitores cansados da violência

Direita brasileira aposta no 'modelo Bukele' para atrair eleitores cansados da violência

Reuters

25/06/2026

Placeholder - loading - Senador brasileiro Flávio Bolsonaro discursa durante um evento em São Paulo 18 de junho de 2026 REUTERS/Alexandre Meneghini
Senador brasileiro Flávio Bolsonaro discursa durante um evento em São Paulo 18 de junho de 2026 REUTERS/Alexandre Meneghini

Por Luciana Magalhaes e Brendan O'Boyle

SÃO PAULO/BRASÍLIA, 25 Jun (Reuters) - Candidatos de direita à ​Presidência estão prometendo importar o 'modelo Bukele' de El Salvador, com a construção de prisões e o endurecimento do combate ao crime nos moldes do presidente linha-dura salvadorenho Nayib Bukele, na tentativa de tornar a segurança pública um tema central de suas campanhas nas eleições de outubro.

As propostas mostram a influência de Bukele, que restringiu direitos civis ao mesmo tempo em que reduziu drasticamente os índices de criminalidade, inspirando imitações em toda a América Latina.

Candidatos de direita na Colômbia e no Peru triunfaram em eleições presidenciais nas últimas semanas fazendo campanhas fortemente pautadas no combate ao crime.

No Brasil, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) viajaram a El Salvador e visitaram o mega-presídio Cecot, com capacidade para 40.000 detentos, buscando conhecer o sistema e angariar apoio eleitoral a medidas mais duras contra o crime.

Flávio, que tem o melhor desempenho nas pesquisas entre os pré-candidatos de direita na corrida presidencial brasileira, apresentou na semana passada um plano ⁠de segurança pública que inclui 'cinco ⁠novos presídios de segurança máxima nos moldes do modelo de El ​Salvador'.

'Mais presídios ‌e menos bandidos soltos', prometeu o senador em evento público, ecoando seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que também fez campanha com um discurso duro contra o crime.

Junto com o seu irmão Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal, o senador também se reuniu com o ministro da Segurança de Bukele em El Salvador no ano passado, assim como Ferreira, o deputado federal mais votado do Brasil em 2022.

A admiração pela abordagem de Bukele em matéria de segurança ⁠pública está se tornando um consenso entre as lideranças conservadoras do Brasil.

O pré-candidato à Presidência Zema elogiou a abordagem 'pragmática' de ​El Salvador em entrevista à Reuters no início deste ano.

'Em El Salvador... bandido fica preso. Aqui no Brasil, bandido fica solto', disse.

O governador de São ​Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), também sugeriu que El Salvador tem lições a oferecer ao Brasil.

'Mal ‌comparando, vamos ver o que o ​Bukele fez ⁠em El Salvador, o que era e o que é', disse ele em evento público no final do ano passado, defendendo medidas mais rígidas para conter o crime.

'Que a gente comece realmente a enfrentar o crime com a dureza que ele merece ser enfrentado.'

O APELO DE BUKELE

A abordagem de Bukele no combate ao crime combinou um estado ​de emergência que já dura há anos, prisões em massa, policiamento com apoio militar e a enorme prisão Cecot. Seu governo afirma que a estratégia provocou uma queda histórica nos homicídios e quebrou o domínio das gangues que antes aterrorizavam El Salvador.

A repressão também restringiu direitos constitucionais, a liberdade de imprensa e a independência do Judiciário. Grupos de direitos humanos acusaram as autoridades salvadorenhas de prisões arbitrárias generalizadas e tortura. O governo de Bukele nega os abusos e afirma que medidas extraordinárias ​foram necessárias para desmantelar as gangues.

Em toda a América Latina, o apelo político tem sido evidente.

A Costa Rica recebeu Bukele em janeiro para inaugurar sua própria prisão no estilo Cecot, construída com apoio salvadorenho. A presidente Laura Fernández assumiu o cargo no mês passado prometendo uma 'guerra pesada contra o crime organizado'.

Na Colômbia, o presidente eleito Abelardo de la Espriella fez campanha com um plano para 10 novas mega-prisões, gerando comparações na mídia com o líder salvadorenho, o que ele rejeitou.

No Peru, onde as preocupações com a segurança dominaram o pleito presidencial deste ano, a provável presidente eleita Keiko Fujimori fez campanha por uma 'guerra frontal' contra o crime, leis antiterrorismo mais rígidas e um papel maior para as Forças Armadas.

'Em toda a região, eleitores que enfrentam insegurança crônica e crescente desconfiança estão recompensando líderes que prometem ​controle decisivo', escreveu Robert Muggah, cofundador do Instituto Igarapé, no periódico Rusi Journal neste mês.

Ele alertou que 'estratégias de mão pesada carregam riscos bem conhecidos quando são mal planejadas e ‌politicamente recompensadas'.

Esses riscos podem ser especialmente agudos no Brasil, onde o ⁠encarceramento em massa não conseguiu conter o crime organizado. Os dois maiores grupos criminosos do Brasil, o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, cresceram de gangues prisionais para organizações de tráfico de drogas nacionais e transnacionais.

O Brasil tem uma das maiores populações carcerárias do mundo, que quase quadruplicou entre 2000 ⁠e 2024, chegando a cerca de 909.000 detentos, operando bem acima de sua capacidade, de acordo com o ⁠World Prison Brief da Universidade de Londres.

'O Brasil é muito mais complexo do ⁠que El Salvador, e seria ⁠muito ​difícil implementar algo assim aqui', disse Rafael Alcadipani, especialista em segurança pública e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV).

(Reportagem de Luciana Magalhaes, em São Paulo, e Brendan O'Boyle, em Brasília)

Reuters

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