EUA tentaram enviar representantes ao Brasil para questionar sistema eleitoral, dizem fontes
EUA tentaram enviar representantes ao Brasil para questionar sistema eleitoral, dizem fontes
Reuters
25/07/2026
Atualizada em 25/07/2026
Por Lisandra Paraguassu
BRASÍLIA, 25 Jul (Reuters) - O Brasil recusou pedidos de visto para dois funcionários do governo Trump que planejavam viajar ao país para colocar em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro, disseram à Reuters duas autoridades brasileiras a par do assunto.
As autoridades, que falaram sob condição de anonimato devido à delicadeza do assunto, afirmaram, neste sábado, que o plano dos Estados Unidos representava uma tentativa de influenciar a eleição presidencial de outubro, na qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrentará o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), aliado de Trump.
O Brasil negou na sexta-feira o pedido de vistos à delegação dos EUA, que incluiria o secretário adjunto Riley M. Barnes, do Bureau de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho do Departamento de Estado, e também Samuel Samson, um subsecretário adjunto, disseram as autoridades brasileiras.
A negativa baseou-se em 'evidências que apontam para uma nova tentativa de explorar politicamente a situação e minar o sistema eleitoral', disse uma das autoridades.
O Departamento de Estado dos EUA não respondeu imediatamente a um pedido de comentário. Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, também não respondeu a um pedido de comentário neste sábado.
O plano dos EUA foi divulgado inicialmente pelo Washington Post e posteriormente confirmado pela Reuters.
A suposta tentativa de interferir nas eleições brasileiras ocorre em um momento em que o governo do presidente dos EUA, Donald Trump, busca influenciar as disputas políticas em toda a América Latina. Seu recente 'apoio total e irrestrito' ao presidente eleito da Colômbia, Abelardo De La Espriella, seguiu-se ao apoio a líderes como Javier Milei, na Argentina, e José Antonio Kast, no Chile.
NOVA TENTATIVA DE DESACREDITAR AS ELEIÇÕES
O ex-presidente Bolsonaro buscou repetidamente minar a confiança no sistema eleitoral brasileiro antes das eleições de 2022, repetindo táticas utilizadas por Trump nos Estados Unidos.
Na época, o diretor da Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA), durante o governo do então presidente Joe Biden, disse ao governo Bolsonaro que parasse de lançar dúvidas sobre o sistema eleitoral brasileiro.
Ainda assim, nos meses que antecederam a votação de 2022, que Lula acabou vencendo, Bolsonaro convocou diplomatas estrangeiros para apresentar alegações infundadas de que o sistema de votação eletrônica do Brasil era vulnerável a fraudes.
No entanto, sua campanha teve um efeito contrário. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu posteriormente que Bolsonaro havia abusado de sua posição e o proibiu de concorrer a cargos públicos até 2030.
Bolsonaro foi posteriormente condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado após a derrota eleitoral. Ele está cumprindo a pena em prisão domiciliar.
Flávio Bolsonaro, encarregado de dar continuidade ao legado de seu pai, reacendeu na semana passada as dúvidas sobre o sistema eleitoral do país, como parte de uma campanha liderada por políticos de direita que vêm se espalhando pelas redes sociais.
Em um evento que contou com a presença de dezenas de diplomatas na semana passada, o senador instou governos estrangeiros a enviarem observadores para monitorar as eleições no Brasil.
No mesmo evento, o senador afirmou que as urnas eletrônicas do Brasil foram produzidas pela Smartmatic, empresa que as autoridades norte-americanas associaram a alegações de manipulação eleitoral na Venezuela.
Tanto a Smartmatic quanto o TSE informaram à Reuters que a empresa não forneceu urnas eletrônicas ao Brasil.
O senador afirmou no evento e em um comunicado que não havia questionado 'a integridade do sistema eleitoral brasileiro'.
Fontes do governo brasileiro veem essa nova investida como uma preparação para se questionar novamente o resultado das eleições no caso de uma derrota de Flávio Bolsonaro, dessa vez com apoio dos Estados Unidos. “Se constrói desde então uma narrativa para ter uma base para esse questionamento”, disse uma das fontes.
(Reportagem de Lisandra Paraguassu em Brasília; Jonathan Landay contribuiu com informações de Washington)
Reuters

