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Governo Lula responsabiliza família Bolsonaro por novas tarifas dos EUA contra o Brasil

Governo Lula responsabiliza família Bolsonaro por novas tarifas dos EUA contra o Brasil

Reuters

02/06/2026

Placeholder - loading - Palácio do Planalto em Brasília 10 de maio de 2023 REUTERS/Adriano Machado
Palácio do Planalto em Brasília 10 de maio de 2023 REUTERS/Adriano Machado

Atualizada em  02/06/2026

Por Lisandra Paraguassu e Bernardo Caram

BRASÍLIA, 2 Jun (Reuters) - O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou nesta ​terça-feira uma ofensiva para colar na família Bolsonaro a culpa pela deterioração das relações do Brasil com os Estados Unidos, após o anúncio, na véspera, pelo Escritório de Comércio dos Estados Unidos (USTR), de que propôs uma tarifa de 25% sobre várias exportações do Brasil.

'Sabotadores', 'entreguistas' e 'traidores da pátria' foram algumas das expressões usadas por autoridades brasileiras para classificar os irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro, filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, que está preso. Flávio é senador de oposição e pré-candidato à Presidência contra Lula.

'Esses filhos do Bolsonaro conseguem ser piores do que ele e são, na verdade, vendilhões da pátria. Foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras... São traidores', disse Lula durante um evento em Catalão (GO).

A decisão do governo norte-americano de antecipar o resultado das conclusões da investigação com base na Seção 301 da lei de comércio do país vinha sendo ventilada nos últimos dias, mas o Brasil ainda esperava que os EUA aguardassem os 30 dias de negociações acordados entre os presidentes Lula e Donald Trump, durante a visita do brasileiro a Washington, em 7 de maio.

O anúncio antecipado foi visto pelo governo brasileiro como um movimento político, ao não levar em conta as negociações em curso e os esclarecimentos apresentados pelo Brasil, disseram à Reuters três fontes que acompanham as negociações.

Ao fazer o anúncio da decisão, o representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, alegou que algumas políticas brasileiras relacionadas a comércio ⁠eletrônico, pagamentos digitais, tarifas preferenciais, desmatamento e mercado ⁠de etanol, entre outras questões, restringem o comércio norte-americano e, por isso, o país ​pode ser alvo de ‌medidas.

'São as mesmas alegações de quando eles abriram a 301 (investigação); desconsideraram todas as explicações. É político mesmo', disse uma das fontes.

A investigação foi aberta em julho de 2025, no mesmo momento em que os EUA anunciaram tarifas de 50% contra as exportações brasileiras e uma série de sanções a membros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do governo, com base em uma suposta perseguição ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

À época, tanto o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que mora hoje nos EUA e é o contato do bolsonarismo com o Departamento de Estado e a Casa Branca, quanto o irmão Flávio comemoraram a medida, o que Lula fez questão de lembrar: 'No dia ⁠em que Trump taxou o Brasil em 50%, olha o que ele (Flávio) tuitou: 'Obrigado, Trump, faça o Brasil livre de novo. Queremos a Magnitsky.''

'Sempre que o diálogo avança, sabotadores ​agem para prejudicar o país, colocando seus interesses eleitorais acima dos interesses do país', disse o vice-presidente Geraldo Alckmin em uma coletiva em Brasília nesta terça-feira.

INDIGNAÇÃO

A reação oficial do governo brasileiro, em nota, manifestou 'indignação' com ​o resultado antecipado da investigação e também culpou a família Bolsonaro.

'Essa investigação teve início em 15 de julho de 2025 por provocação ‌da família Bolsonaro e está associada à tentativa de ingerência ​em temas ⁠internos do nosso país, como feito na recente viagem do senador Flávio Bolsonaro a Washington. Essas investidas têm contado com o auxílio de falsos patriotas que usam cargos e funções públicas para conspirar contra os interesses nacionais', diz o texto.

'É lastimável que todo o trabalho de diálogo e articulação que o governo brasileiro tem feito, inclusive com envolvimento pessoal dos presidentes Lula e Trump, seja sabotado por interesses meramente eleitorais e familiares', continua.

Uma fonte da equipe econômica descreveu um cenário difícil na ​negociação tarifária entre os dois países, com os EUA demandando corte amplo e drástico do Imposto de Importação pelo Brasil, movimento que o governo brasileiro não aceita.

'Eles acham que o Brasil deveria ceder, deveria tirar todas as tarifas, e não é por aí; tem que haver uma negociação', disse a fonte, mencionando que o Brasil aceita negociar tópicos específicos, como o comércio de etanol e bens de capital.

BASTIÃO BOLSONARISTA

Apesar da boa relação entre os presidentes Lula e Trump, há pontos de conflito generalizados entre as equipes dos governos dos dois países. Recentemente, uma disputa entre Brasil e Estados Unidos sobre uma moratória para impostos no comércio eletrônico dentro da OMC azedou ainda mais as relações comerciais, com Greer dizendo ​que não teria mais 'boa vontade' com o Brasil.

No entanto, o governo brasileiro vê o Departamento de Estado dos EUA como principal bastião de apoio ao bolsonarismo dentro do governo Trump e aponta um crescimento das articulações neste ano eleitoral.

'O Departamento de Estado é um lado consistentemente contrário ao Brasil, a gente sabe disso', disse uma terceira fonte.

Na semana passada, depois do encontro com Flávio Bolsonaro, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, anunciou a inclusão das facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho na lista de organizações terroristas internacionais, uma medida que o governo brasileiro havia tentado evitar.

Em publicação em suas redes sociais nesta terça-feira, Flávio publicou um trecho de entrevista que deu à rádio Itatiaia na qual afirma que pediu 'expressamente' nas reuniões com Trump e com outras autoridades norte-americanas que os EUA não impusessem tarifas sobre empresas brasileiras.

Em uma carta endereçada a Rubio, e divulgada por sua assessoria de imprensa, Flávio pediu que não sejam impostas tarifas sobre produtos brasileiros, argumentando que a economia brasileira passa por dificuldades e que a população será a mais prejudicada com as medidas.

'O Brasil está vivendo uma grave deterioração fiscal e econômica', diz o pré-candidato na ​carta, escrita em inglês. 'As contas públicas continuam registrando déficit primário, enquanto os pagamentos de juros da dívida atingiram níveis recordes.'

'Diante desse cenário, a imposição de novas tarifas causaria sérios prejuízos ao povo brasileiro — justamente os cidadãos que veem os Estados Unidos ‌como parceiro e amigo', afirma o senador.

Após o tarifaço dos EUA sobre o Brasil no ano ⁠passado, o governo Lula passou a adotar o discurso de defesa da soberania nacional e a responsabilizar o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, também filho do ex-presidente, por influenciar na imposição das taxas. A estratégia levou a uma recuperação de Lula nas pesquisas de opinião.

Nesta semana, também foi anunciada a indicação de um novo embaixador dos EUA para o Brasil, cargo vago há mais de um ano. Daniel Perez, deputado estadual da Flórida, filho de imigrantes cubanos, ⁠é um seguidor fiel do movimento Make America Great Again (MAGA), núcleo duro da base de apoio de Trump, e considerado um nome ligado a Marco ⁠Rubio, com quem compartilha o Estado e a origem cubana.

A imposição das tarifas propostas não é obrigatória; cabe a ⁠Trump decidir quando, como e se vai adotá-las.

'A ⁠Casa ​Branca vai ficar com essa carta na manga para usar quando quiser, e em um ano eleitoral', aponta uma das fontes ouvidas pela Reuters.

(Reportagem de Lisandra Paraguassu e Bernardo Caram; Edição de Eduardo Simões, Isabel Versiani, Alexandre Caverni e Pedro Fonseca)

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