Impedido de participar da campanha, Bolsonaro poderá ser substituído por um avatar de IA na eleição?
Impedido de participar da campanha, Bolsonaro poderá ser substituído por um avatar de IA na eleição?
Reuters
28/07/2026
Atualizada em 28/07/2026
Por Ricardo Brito e Luciana Magalhaes
BRASÍLIA/SÃO PAULO, 28 Jul (Reuters) - Um avatar de IA permitiu que o ex-presidente Jair Bolsonaro fizesse uma aparição surpresa no lançamento da campanha presidencial de seu filho Flávio no sábado, mesmo estando em prisão domiciliar e impedido pela Justiça de participar da eleição, em um episódio que levantou discussões sobre como a tecnologia pode influenciar a corrida eleitoral de outubro.
'Nenhuma prisão vai calar o sentimento de esperança que despertamos', disse o avatar durante a convenção nacional do PL, após informar ao público que havia sido criado com IA. 'Por isso, peço que recebam com braços abertos a pessoa que eu escolhi para me substituir', acrescentou.
A iniciativa, prontamente contestada na Justiça por partidos de esquerda, evidenciou um dilema para a campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT): como capitalizar a popularidade de seu pai entre os conservadores enquanto o ex-presidente está proibido de se comunicar publicamente.
O caso também trouxe uma nova preocupação em relação à IA nas eleições. Enquanto o debate tem se concentrado amplamente em 'deepfakes' que espalham desinformação, o episódio de Bolsonaro está testando se a tecnologia pode servir como um substituto para líderes impedidos de se comunicarem diretamente com os eleitores.
Ainda não está claro se a aparição do avatar foi um fato isolado ou o início de uma participação mais ativa de um Bolsonaro virtual na campanha do filho.
Críticos argumentaram que o vídeo violou as regras eleitorais brasileiras porque as mídias sintéticas podem influenciar a vontade dos eleitores, ao mesmo tempo em que, neste caso, ofereceram um atalho às restrições judiciais impostas a Bolsonaro.
O ex-presidente está proibido de fazer manifestações públicas enquanto cumpre prisão domiciliar após sua condenação por tentativa de golpe de Estado após a eleição de 2022, na qual foi derrotado por Lula.
'O que ocorre com a inteligência artificial é que é algo praticamente incontrolável', disse à Reuters o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello, que também presidiu o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
QUESTÕES SOBRE A APLICAÇÃO DAS RESTRIÇÕES
Em uma petição protocolada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no domingo, uma coalizão de partidos de centro-esquerda e de esquerda argumentou que as regras vedam 'a utilização de conteúdos sintéticos capazes de reproduzir pessoas reais de forma a influenciar a formação da vontade do eleitor', citando o potencial persuasivo e manipulador da tecnologia.
Contudo, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques -- nomeado ao STF por Bolsonaro --, evitou condenar a exibição do vídeo. 'Usar IA para fazer campanha é lícito, o que não pode é usar para prejudicar alguém', disse ele ao jornal O Estado de S. Paulo.
Nunes Marques declarou que não poderia se pronunciar sobre o caso específico antes que ele seha avaliado pelo tribunal. Ele não respondeu a um pedido de comentário da Reuters.
A regra de IA do tribunal proíbe o uso de conteúdo fabricado ou manipulado na propaganda eleitoral para espalhar informações falsas ou enganosas que possam prejudicar a lisura da eleição ou a integridade do processo eleitoral.
Em consonância com as declarações de Nunes Marques, a defesa de Flávio Bolsonaro argumentou, em manifestação ao TSE vista pela Reuters na tarde de terça-feira, que o vídeo era legal e que o público foi explicitamente informado de que se tratava de uma simulação de inteligência artificial.
Os advogados também afirmaram que seu conteúdo inofensivo e totalmente digital se encaixava na dinâmica padrão das convenções políticas, descartando as alegações de 'deepfake'.
Segundo Ivar Hartmann, professor associado de direito no Insper, em São Paulo, é improvável que Jair Bolsonaro enfrente punições, pois ele pode argumentar que não gravou nem autorizou a mensagem gerada por IA.
A questão mais difícil, segundo Hartmann, é determinar se o vídeo violou as regras eleitorais de uso da IA, embora a defesa possa argumentar que essas restrições se aplicam apenas a conteúdos enganosos que prejudiquem a lisura ou a integridade eleitoral, uma interpretação consistente com as declarações de Nunes Marques.
De acordo com o jornal O Globo, Jair Bolsonaro não havia sido informado com antecedência de que ele seria exibido, e a campanha concluiu que revelar que o vídeo fora gerado por IA fornecia base legal suficiente para seu uso.
(Reportagem de Ricardo Brito e Luciana MagalhaesEdição de Manuela Andreoni)
Reuters

