JAMES VAN DER BEEK, DAWSON’S CREEK E A TRILHA SONORA DE UMA GERAÇÃO
A PARTIDA DO ASTRO TRAZ DE VOLTA “I DON’T WANT TO WAIT”, TEMA DE PAULA COLE QUE DEFINIU OS ANOS 90
João Carlos
12/02/2026
A morte do ator James Van Der Beek, na quarta-feira, 11 de fevereiro, aos 48 anos, vítima de complicações de um câncer colorretal, trouxe de volta naturalmente a lembrança de Dawson's Creek — série que marcou profundamente o fim dos anos 1990.
Entre os ouvintes da Antena 1, as manifestações foram imediatas. Não apenas pela trajetória do ator, mas também pela trilha sonora que se tornou inseparável da produção: “I Don’t Want to Wait”, de Paula Cole, justamente no ano em que a canção completa três décadas — música que segue presente na programação da rádio e na memória afetiva de uma geração.
A música que virou símbolo da juventude dos anos 90

Crédito da imagem: Capa do álbum This Fire, de Paula Cole – Warner Bros. Records (1996)
Lançada originalmente em 1996 no álbum This Fire, “I Don’t Want to Wait” não foi composta para a televisão. A canção já havia conquistado espaço nas rádios e alcançado destaque nas paradas americanas antes mesmo de ser associada à série.
No entanto, foi a partir de 1998, como tema de abertura de Dawson's Creek, que a música ganhou dimensão global e se transformou em marca registrada da produção. A escolha acabou criando uma das conexões mais fortes entre televisão e rádio no fim dos anos 1990.
A introdução com piano marcante, seguida pela interpretação intensa e emocional de Paula Cole, passou a representar muito mais do que um programa de TV. Tornou-se sinônimo de adolescência, descobertas afetivas, inseguranças, conflitos familiares e sonhos sobre o futuro.
Curiosamente, a letra não foi escrita pensando em personagens adolescentes. Inspirada em reflexões pessoais de Paula Cole sobre maturidade, responsabilidade e passagem do tempo, a canção fala sobre escolhas e crescimento — temas que dialogavam de forma quase perfeita com a narrativa do seriado.
Assim, a cada episódio, a pergunta implícita parecia ecoar não apenas para Dawson e seus amigos, mas para toda uma geração: esperar ou agir? Crescer ou permanecer?
E foi justamente essa combinação de identidade própria e contexto televisivo que transformou “I Don’t Want to Wait” em um dos hinos definitivos da juventude dos anos 90.
Televisão e rádio: uma conexão duradoura
Nos anos 90, a televisão tinha papel central na formação do imaginário coletivo. Mas era o rádio que mantinha vivas as trilhas sonoras.
“I Don’t Want to Wait” extrapolou a tela e passou a tocar intensamente nas programações musicais, consolidando-se como um dos grandes hits da década. Até hoje, quando a canção entra na programação da Antena 1, ela não é apenas uma música — é memória afetiva imediata.
O poder dessa conexão explica por que, diante da notícia da morte de James Van Der Beek, tantos ouvintes associaram automaticamente o ator à música. A série e sua trilha tornaram-se indissociáveis.
Dawson’s Creek: o retrato emocional de uma geração

Crédito da imagem: Cartaz promocional da série Dawson’s Creek – Divulgação / The WB (1998)
Exibida entre 1998 e 2003 pelo canal americano The WB, Dawson's Creek tornou-se um dos dramas adolescentes mais influentes da televisão contemporânea. Criada por Kevin Williamson, a série acompanhava um grupo de amigos na fictícia cidade costeira de Capeside, em Massachusetts, enquanto atravessavam a delicada transição da adolescência para a vida adulta.
Mais do que romances juvenis, o seriado abordava inseguranças, crises familiares, ambições profissionais e dilemas morais com diálogos intensos e emocionalmente sofisticados para a época. Era uma produção que tratava adolescentes como pessoas complexas — e isso a diferenciou no final dos anos 1990.

Crédito da imagem: Elenco de Dawson’s Creek (no sentido horário, a partir do alto à esquerda): Joshua Jackson, Katie Holmes, James Van Der Beek e Michelle Williams. Foto: Fergus Greer / Columbia TriStar Television / Everett / Shutterstock.
No centro da narrativa estava Dawson Leery, interpretado por James Van Der Beek. Sonhador, apaixonado por cinema e frequentemente idealista, o personagem simbolizava o jovem sensível e introspectivo que buscava entender o mundo e a si mesmo.
Van Der Beek conseguiu dar humanidade a um protagonista que poderia facilmente soar excessivamente dramático. Sua interpretação transformou Dawson em espelho de muitos adolescentes da época — inseguros, românticos, ambiciosos e emocionalmente intensos.
Com o sucesso internacional da série, o ator rapidamente se tornou um dos grandes ídolos juvenis do período. Revistas, capas, entrevistas e participações em eventos consolidaram sua imagem como rosto de uma geração que crescia diante das câmeras, aprendendo sobre amor, amizade e identidade.
A combinação entre narrativa emocional, personagens carismáticos e uma trilha sonora cuidadosamente escolhida ajudou a transformar Dawson’s Creek em um fenômeno cultural que ultrapassou a televisão — alcançando o rádio, a moda e o imaginário coletivo dos anos 90.
Trinta anos depois, o mesmo impacto

Imagem: Capa do single “I Don’t Want to Wait”, de Paula Cole. Lançamento Warner Bros. Records, 1996
Em 2026, “I Don’t Want to Wait” completa 30 anos de lançamento. Três décadas depois, continua sendo reconhecida nos primeiros acordes.
Mais do que tema de abertura, a canção ajudou a moldar a identidade cultural de uma geração. É um exemplo claro de como a música potencializa narrativas audiovisuais e ultrapassa o tempo.
A lembrança da série reacende também a força de sua trilha. E mostra que algumas músicas não pertencem apenas a um momento específico — elas atravessam décadas, continuam tocando nas rádios e seguem conectando histórias pessoais a uma memória coletiva.
E talvez seja exatamente isso que explique por que, ao ouvir os primeiros acordes de “I Don’t Want to Wait”, tanta gente ainda se vê de volta aos anos 90.
As outras canções da série
Dawson's Creek não foi apenas “I Don’t Want to Wait”. A produção ajudou a consolidar uma estética sonora inteira que marcou o fim dos anos 90 e o início dos anos 2000.
Antes mesmo de o tema de Paula Cole se tornar a assinatura definitiva da abertura, o episódio piloto trouxe “Run Like Mad”, de Jann Arden — uma faixa mais introspectiva e delicada, que já indicava o tom emocional da série.
Entre os momentos mais lembrados está “Kiss Me”, do Sixpence None the Richer, trilha de uma das cenas românticas mais emblemáticas do seriado e, para muitos fãs, praticamente inseparável da memória afetiva daquele período.
O romantismo intenso também foi embalado por “Truly Madly Deeply”, do duo australiano Savage Garden, que reforçou a atmosfera sentimental característica da narrativa.
Em momentos de maior dramaticidade, a série recorreu a clássicos como “I’ll Stand By You”, do The Pretenders, ampliando o peso emocional das cenas.
Já “Feels Like Home”, de Chantal Kreviazuk, ajudou a consolidar o tom melancólico e reflexivo que acompanhava o amadurecimento dos personagens.
A trilha também dialogava com nomes consagrados, como Van Morrison, com “Days Like This”, equilibrando contemporaneidade e tradição.
E o folk-pop feminino que dominava o período estava representado por “Hands”, de Jewel, reforçando a identidade sonora da época.
O que torna Dawson’s Creek especial é que sua trilha não funcionava apenas como pano de fundo. A música era extensão emocional dos personagens. Cada faixa parecia comentar a cena, quase como uma narração lírica dos conflitos, das descobertas e das despedidas.
Talvez seja por isso que, décadas depois, ao ouvir qualquer uma dessas canções, tanta gente volte automaticamente para Capeside. Música e memória ficaram definitivamente entrelaçadas.



