Mendonça abriu inquérito contra Flávio por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão em caso 'Dark Horse'
Mendonça abriu inquérito contra Flávio por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão em caso 'Dark Horse'
Reuters
11/09/2026
Atualizada em 11/09/2026
Por Ricardo Brito e Lisandra Paraguassu
BRASÍLIA, 11 Set (Reuters) - O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou em julho a abertura de inquérito para investigar o senador Flávio Bolsonaro, presidenciável do PL, por supostos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas no caso dos repasses feitos pelo banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar o filme 'Dark Horse', a cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A decisão foi tornada pública nesta sexta-feira depois da liberação de partes dos sigilos relativos ao Master por Mendonça. Mais tarde, o presidente do STF, Edson Fachin, determinou que o ministro quebre mais sigilos, devendo ficar de fora apenas informações de diligências ainda em curso que, se tornadas públicas, podem prejudicar investigações.
A abertura do inquérito por Mendonça foi requerida pela Polícia Federal, que defendia o aprofundamento das investigações, e teve o aval da Procuradoria-Geral da República (PGR).
'Nessa perspectiva, considerando os termos da representação da Polícia Federal e a concordância da Procuradoria-Geral da República, autorizo... a instauração de procedimento investigatório... para apuração da hipótese criminal delineada pela autoridade policial', disse Mendonça, em despacho de duas páginas.
Ao comentar a divulgação da abertura de inquérito durante evento de campanha em Manaus, Flávio disse estar tranquilo e afirmou que ficará comprovado que o patrocínio de Vorcaro ao filme foi uma 'relação privada'.
“Estão requentando uma decisão desde julho, no momento quando ultrapassamos em todas as pesquisas o ‘Império do Mal’. Estamos numa eleição presidencial e não é novidade para ninguém que vão tentar fazer de tudo para desestabilizar e inventar coisas onde não tem”, afirmou o senador.
“Sempre disse que a relação com o filme foi privada, um patrocínio privado em relação ao filme do presidente Bolsonaro. É muito positivo para confirmar o que sempre falei.”
Os detalhes dessa investigação aberta em julho não são de conhecimento público porque o caso segue sob sigilo. Na época da abertura de inquérito, em julho, a Reuters havia noticiado a determinação de Mendonça, mas não tinha detalhes das alegações para a investigação contra o presidenciável.
A representação de 16 páginas da PF do dia 8 de julho, tornada pública nesta sexta-feira, detalha os indícios de participação de Flávio Bolsonaro na 'viabilização e cobrança dos aportes' a Daniel Vorcaro para financiamento da produção do filme.
O documento relata uma série de tratativas entre o senador e o banqueiro e pessoas ligadas a ele desde ao menos dezembro de 2024 até 16 de novembro de 2025, às vésperas da primeira fase da Operação Compliance Zero, que levou à prisão pela primeira vez de Vorcaro.
Nessa ocasião, Flávio Bolsonaro tentou contato com Vorcaro e, posteriormente, encaminhou mensagem afirmando: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”, segundo degravação de áudio citada na representação.
'Tais elementos indicam que o senador Flávio Nantes Bolsonaro não aparece apenas como terceiro mencionado em comunicações de outras pessoas, mas como interlocutor direto de Daniel Vorcaro em tratativas relacionadas ao financiamento da produção, inclusive com cobranças de pagamentos, reuniões presenciais e acompanhamento do andamento das gravações', disse a PF na representação.
O caso do apoio de Vorcaro a Flávio sobre o filme foi revelado em reportagem em maio do site Intercept Brasil.
O documento da PF informa que foi localizado nas comunicações extraídas do aparelho celular de Vorcaro um contrato que previa 'investimento total de US$24.000.000,00, correspondente, à época, a aproximadamente R$ 134 milhões' -- confirmando dados reportados pelo Intercept Brasil.
A polícia afirmou que dados extraídos do celular de Vorcaro mostraram que ele transferiu cerca de US$12 milhões em 2025 para um fundo sediado nos Estados Unidos ligado ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, irmão do senador, que hoje vive no Texas, como parte dos esforços para financiar o filme.
Uma das capturas de tela incluídas nos documentos sugere que Eduardo orientou a equipe de Vorcaro sobre a gestão dos recursos nos Estados Unidos.
Em entrevista à Reuters nesta sexta-feira, Eduardo Bolsonaro afirmou que as transferências para o fundo sediado nos Estados Unidos tinham como objetivo evitar interferência do ministro Alexandre de Moraes, do STF, que condenou seu pai por uma trama golpista e posteriormente conduziu um processo separado que resultou na própria condenação do ex-deputado.
'Querem colocar isso como se fosse dinheiro de propina, o que não é', disse Eduardo. 'É mentiroso.'
Segundo a PF, a dinâmica recomenda o aprofundamento das investigações para esclarecer, entre outras questões, a origem dos recursos destinados a financiar o filme, a utilização de empresas como intermediárias dos pagamentos, beneficiários finais dos valores remetidos ao exterior, e o papel efetivamente exercido por Flávio Bolsonaro e outras sete pessoas na 'estruturação, cobrança, execução e destinação dos aportes'.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, se manifestou a favor do pedido da PF de abertura de inquérito e realização de diligências, além de defender a análise de eventuais propostas legislativas apresentadas por Flávio Bolsonaro que poderiam ser de interesse do Banco Master e de empresas ligadas a Daniel Vorcaro.
CAMPANHA
A queda do sigilo da investigação sobre o caso Master e a confirmação de que Flávio Bolsonaro é investigado por vários crimes promete causar mais uma turbulência na campanha eleitoral.
No PT, a avaliação é que o fato coloca de novo o candidato do PL na defensiva, mas é preciso esperar para ver qual o impacto real nas intenções de voto. Quando o caso foi revelado, em maio deste ano, Flávio, que vinha em ascensão nas pesquisas, passou a cair.
A estratégia do PT é continuar batendo na necessidade de quebra total de sigilo das investigações, como defendeu o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, em entrevista, na noite de quinta.
Nos últimos dias, Lula vinha cobrando o fim do sigilo, inclusive em conversas com Fachin. É, na visão do governo e da campanha, a maneira de afastar o governo Lula do envolvimento direto na crise do STF.
Nesta sexta, com as notícias sobre o envolvimento de Flávio com Daniel Vorcaro de volta à mídia, o partido voltou à carga contra o candidato.
Eden Valadares, secretário de comunicação do PT, chamou de hipocrisia a campanha de Flávio, que 'fala em perseguir bandidos' mas é investigado por corrupção.
As novas revelações voltarão a lançar uma sombra sobre a campanha de Flávio, mas agora o senador terá menos tempo para se recuperar, avaliou Marco Antonio Teixeira, cientista político e professor da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo.
'Provavelmente vai ter algum efeito, porque as pesquisas têm mostrado que tem um eleitorado que flutua dependendo dos eventos, ele é pequeno, mas decide a eleição.'
(Reportagem adicional de Luciana Magalhães e Fabio Teixeira;Edição de Eduardo Simões, Isabel Versiani, Maria Carolina Marcello e Alexandre Caverni)
Reuters

