OMS ALERTA QUE EVOLUÇÃO DA EPIDEMIA DE EBOLA ULTRAPASSA ESFORÇOS LOCAIS
O DIRETOR-GERAL TEDROS ADHANOM PRETENDE ACOMPANHAR A SITUAÇÃO NO EPICENTRO DOS CASOS
João Carlos
26/05/2026
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou nesta segunda-feira que o avanço do vírus já está ultrapassando a capacidade atual de resposta das equipes de saúde. Segundo ele, a demora na detecção inicial permitiu que a transmissão avançasse mais rapidamente, obrigando médicos e autoridades sanitárias a “correr atrás” do surto.
Mais de mil casos monitorados
Até o fechamento desta matéria, os dados mais recentes compilados por OMS, CDC e autoridades sanitárias da RDC mostravamm um cenário em rápida evolução. O país já contabiliza mais de 1.000 notificações entre casos suspeitos e confirmados, concentradas principalmente na província de Ituri, no leste congolês.
Segundo o CDC, a RDC registra atualmente 906 casos suspeitos, 105 confirmações laboratoriais e mais de 220 mortes suspeitas ligadas ao surto. Uganda, que já enfrenta casos importados, confirmou sete infecções relacionadas ao avanço da doença.
A OMS alertou que os números ainda podem crescer de forma significativa nas próximas semanas, especialmente porque parte dos casos continua sob investigação laboratorial.
O vírus já ultrapassou o epicentro inicial
O foco principal segue na província de Ituri, mas o Ebola já avançou para outras regiões da RDC, incluindo áreas de Kivu do Norte e Kivu do Sul. A preocupação internacional aumentou após a confirmação de transmissão para Uganda, inclusive com registros em Kampala.
O deslocamento constante de pessoas entre regiões de mineração, centros urbanos e fronteiras terrestres dificulta o bloqueio sanitário. Países vizinhos reforçaram vigilância em aeroportos e postos de fronteira para tentar impedir uma disseminação regional mais ampla.
A cepa Bundibugyo preocupa
O atual surto é provocado pelo Bundibugyo virus, uma variante mais rara do Ebola. Diferentemente da cepa Zaire — associada a epidemias recentes no continente africano — não existe hoje uma vacina aprovada especificamente para essa variante.
Isso limita as estratégias médicas principalmente ao tratamento de suporte, com hidratação, controle de sintomas e isolamento rápido dos pacientes infectados.
A organização Médicos Sem Fronteiras afirma que surtos ligados ao Bundibugyo costumam representar um desafio maior justamente pela ausência de vacinas licenciadas e pela dificuldade de resposta em áreas com infraestrutura limitada.
Violência e desconfiança agravam a crise
Além do avanço da doença, a resposta humanitária enfrenta obstáculos provocados por conflitos armados e resistência local. A OMS e veículos internacionais relatam ataques a estruturas médicas, dificuldades logísticas e episódios de desconfiança da população em relação às equipes de saúde.
A província de Ituri vive há anos uma crise marcada pela atuação de grupos armados e deslocamentos populacionais. Em várias áreas, equipes médicas enfrentam dificuldade para chegar até pacientes, rastrear contatos e manter protocolos de isolamento.
A própria OMS reconhece que o ambiente de insegurança está permitindo que a transmissão avance mais rápido do que a capacidade operacional das equipes no terreno.
O cenário atual
O principal temor das autoridades sanitárias é que o surto continue avançando antes que a resposta internacional consiga estabilizar a transmissão. O crescimento rápido de notificações, a circulação entre fronteiras e a ausência de vacina específica aumentam o grau de preocupação.
O diretor-geral da OMS informou que viajaria à RDC acompanhado de especialistas em emergências para acompanhar a situação diretamente no epicentro do surto. Segundo ele, o cenário “provavelmente piorará antes de melhorar”.
Como os EUA tentam barrar a entrada do vírus antes da Copa
A proximidade da Copa do Mundo aumenta a atenção das autoridades americanas. Os Estados Unidos, que receberão parte central do torneio, adotaram medidas emergenciais para reduzir o risco de entrada do Ebola no país, especialmente por causa do deslocamento internacional de torcedores, delegações e profissionais ligados ao evento.
Em 18 de maio, o CDC e o Departamento de Segurança Interna dos EUA anunciaram restrições de entrada, triagem reforçada em aeroportos e medidas adicionais de saúde pública para viajantes que estiveram recentemente na República Democrática do Congo, em Uganda ou no Sudão do Sul. O CDC afirma que, até agora, não há casos confirmados de Ebola nos Estados Unidos associados a esse surto, e que o risco para o público americano permanece baixo.
Pela ordem em vigor, determinados estrangeiros que passaram pela RDC, Uganda ou Sudão do Sul nos 21 dias anteriores à chegada estão temporariamente proibidos de entrar nos Estados Unidos. Em uma atualização posterior, a regra também passou a alcançar residentes permanentes legais, os chamados portadores de green card, caso tenham estado nesses países no mesmo período. A suspensão é temporária e, segundo o CDC, está prevista inicialmente para durar 30 dias.
Triagem em aeroportos e monitoramento por 21 dias
Os viajantes autorizados a entrar nos Estados Unidos, incluindo cidadãos americanos, passam por triagem reforçada se tiverem estado nos países monitorados. A entrada desses passageiros deve ocorrer por aeroportos específicos: Washington-Dulles, Hartsfield-Jackson Atlanta e George Bush Intercontinental, em Houston.
O procedimento inclui questionário sobre sintomas e histórico de viagem, checagem de temperatura sem contato, observação por equipes do CDC e coleta de informações para eventual acompanhamento por autoridades locais de saúde. Mesmo sem sintomas, os viajantes recebem orientação para monitorar a saúde por 21 dias, período máximo de incubação da doença.
O Departamento de Estado também suspendeu temporariamente os serviços de visto nas embaixadas americanas em Juba, Kinshasa e Kampala. A pausa inclui vistos de turismo, negócios, estudos, intercâmbio e outras categorias, mas não cancela vistos já válidos.
A preocupação com a seleção da RDC
A situação ganhou uma camada esportiva porque a República Democrática do Congo está classificada para a Copa e estreia contra Portugal em 17 de junho, em Houston. A Reuters informou que a delegação congolesa foi orientada por autoridades americanas a manter uma “bolha” de isolamento por 21 dias durante a preparação na Bélgica, sob risco de ter a entrada nos Estados Unidos negada caso o protocolo seja quebrado.
A seleção cancelou a etapa de preparação que faria em Kinshasa, mas manteve amistosos na Europa antes da chegada prevista aos Estados Unidos. Segundo a Associated Press, a equipe informou que seus jogadores e o técnico Sébastien Desabre estão baseados fora da RDC, em grande parte na Europa, o que reduz o impacto direto da restrição para a delegação esportiva.
A FIFA afirmou à AP que acompanha a situação e mantém contato com a federação congolesa para garantir que a equipe receba as orientações médicas e de segurança necessárias. A entidade confirma que a RDC enfrentará Portugal em Houston, depois Colômbia em Guadalajara e Uzbequistão em Atlanta pela fase de grupos.
Houston reforça atenção, mas evita tom de alarme
Houston está no centro dessa preocupação porque será sede da estreia da RDC na Copa e também aparece entre os aeroportos americanos designados para receber viajantes submetidos à triagem reforçada. O comitê local do Mundial afirmou ao Houston Chronicle que está sendo orientado por FIFA, especialistas em saúde pública e agências médicas, e que seguirá as recomendações das autoridades sanitárias.
Autoridades locais, no entanto, têm evitado um tom de pânico. A juíza do Condado de Harris, Lina Hidalgo, afirmou que a região está preparada e que acompanha o tema com especialistas. O foco, segundo a cobertura local, está em coordenação, vigilância e comunicação com o público, não em suspensão de eventos.
Apoio financeiro à resposta na África
Além das barreiras de entrada, o governo americano também anunciou ajuda emergencial para apoiar a resposta ao surto nos países afetados. O Departamento de Estado informou ter mobilizado inicialmente US$ 13 milhões em assistência externa para ações imediatas, incluindo vigilância, testes laboratoriais, comunicação de risco, enterros seguros, triagem em fronteiras e gestão clínica de casos.
As medidas mostram como o avanço do Ebola já ultrapassa o campo sanitário e começa a pressionar também a logística de um dos maiores eventos esportivos do mundo. Para os Estados Unidos, o desafio é equilibrar segurança em saúde pública, circulação internacional e realização da Copa sem transformar a prevenção em pânico.
A principal aposta das autoridades é uma resposta estratégica em várias frentes: conter o surto na origem, restringir entradas de maior risco, reforçar a triagem em aeroportos e manter cidades-sede preparadas para agir rapidamente caso algum viajante apresente sintomas.


