OS APLICATIVOS DE RELACIONAMENTO E OS RISCOS DO AMOR NA ERA DIGITAL
ENTRE A PROMESSA DO PAR PERFEITO, PERIGOS REAIS E O ALERTA DA SAÚDE MENTAL E DA SEGURANÇA PÚBLICA
João Carlos
22/01/2026
Durante décadas, conhecer alguém foi fruto do acaso, de círculos sociais, do trabalho ou de encontros inesperados. Nos últimos anos, porém, a lógica mudou de forma silenciosa e definitiva. Os aplicativos de relacionamento passaram a ocupar um espaço central na rotina de milhões de pessoas que ainda não encontraram o chamado “par perfeito” — se é que ele existe fora do imaginário romântico.
Hoje, deslizar perfis se tornou tão comum quanto checar mensagens ou redes sociais. Plataformas como Tinder, Bumble e Hinge deixaram de ser alternativas e passaram a ser, para muitos, o principal meio de conhecer alguém. A promessa é simples e poderosa: em algum lugar da tela, está a pessoa certa.
O ideal do “par perfeito”: expectativa ou armadilha emocional?
Os aplicativos operam sobre uma ideia sedutora. Sempre pode haver alguém melhor logo adiante. Mais compatível. Mais interessante. Mais disponível. Esse funcionamento, segundo especialistas em comportamento, altera a forma como os vínculos são construídos e sustentados.
O excesso de opções pode gerar dificuldade de escolha, frustração constante e menor tolerância às imperfeições naturais de qualquer relação. A busca pelo “match ideal” acaba se transformando em uma sequência de tentativas rápidas, onde pessoas passam a ser avaliadas como perfis, não como histórias.
Nesse cenário, cresce a sensação de que o compromisso ficou mais frágil, enquanto a expectativa se tornou mais rígida.

Crédito da imagem: Esther Perel, psicoterapeuta, autora e palestrante. Fonte: TED Conferences
Essa percepção aparece com frequência na análise de profissionais que estudam as transformações dos vínculos afetivos na era digital. A psicoterapeuta belga Esther Perel, uma das vozes mais respeitadas no debate contemporâneo sobre relacionamentos, costuma alertar que o excesso de escolhas pode criar uma ilusão perigosa. Para ela, quando o amor passa a operar sob a lógica de catálogo, cresce a tendência de abandonar relações diante do primeiro sinal de frustração, sempre com a sensação de que uma opção melhor está a apenas um deslizar de distância.
Segundo Perel, essa dinâmica enfraquece a capacidade de sustentar o desejo e a construção emocional ao longo do tempo, substituindo o investimento no outro pela busca constante por novidade.
Quando o risco deixa de ser emocional e vira prejuízo real
Além do impacto afetivo, os aplicativos de relacionamento também se tornaram terreno fértil para golpes amorosos, um problema que vem sendo monitorado por autoridades policiais e especialistas em saúde mental em diversos países.
O padrão costuma se repetir. A aproximação acontece de forma gradual, com conversas frequentes e a construção de um vínculo emocional que transmite confiança. Em seguida surgem promessas de relacionamento, planos futuros ou pedidos de ajuda financeira ligados a emergências, investimentos ou dificuldades momentâneas. Quando o golpe se concretiza, o prejuízo não é apenas financeiro. Vergonha, culpa e retraimento social costumam acompanhar as vítimas.
Dados divulgados por órgãos internacionais mostram que esse tipo de crime cresceu de forma significativa nos últimos anos. Nos Estados Unidos, o Federal Bureau of Investigation e a Federal Trade Commission registram perdas que ultrapassam a casa de bilhões de dólares anuais em golpes classificados como romance scams. Autoridades destacam que muitos casos sequer chegam a ser denunciados, o que indica um cenário ainda mais amplo.
No Brasil, forças policiais e órgãos de defesa do consumidor também vêm alertando para o aumento do chamado estelionato sentimental, especialmente em ambientes digitais. Investigações apontam que mulheres aparecem com maior frequência entre as vítimas, sobretudo em contextos de solidão prolongada, luto ou busca por relacionamentos estáveis em fases mais maduras da vida.

Crédito da imagem: Akil Davis, Assistant Director in Charge do escritório do FBI em Los Angeles — FBI
Diante desse cenário, autoridades têm adotado uma postura cada vez mais direta na orientação ao público. Em comunicado oficial, Akil Davis, diretor assistente do FBI em Los Angeles, fez um alerta claro sobre esse tipo de crime:
“Confidence fraud, ou golpes amorosos, pode acontecer com qualquer pessoa. Indivíduos que procuram amor e companhia são alvos comuns desse tipo de fraude online. Quem se envolve romanticamente com alguém conhecido apenas pela internet deve proceder com cuidado e ficar atento aos sinais de alerta. Se houver suspeita de golpe, a recomendação é interromper imediatamente todo contato.”
As orientações das autoridades convergem em alguns pontos centrais: desconfiar de pedidos financeiros, evitar compartilhar informações pessoais ou bancárias e manter cautela quando o relacionamento avança rapidamente sem encontros presenciais. O objetivo, segundo especialistas, não é gerar medo, mas ampliar a percepção de risco em ambientes digitais onde o envolvimento emocional pode ser usado como ferramenta de manipulação.
Dependência psicológica e validação digital
Outro ponto central do debate envolve o uso excessivo e, em alguns casos, compulsivo dessas plataformas. Psicólogos relatam comportamentos cada vez mais frequentes em consultórios: checagem constante de mensagens, ansiedade diante da ausência de respostas e uma sensação de autoestima diretamente ligada ao número de curtidas ou matches.
Esse padrão já foi analisado em pesquisas acadêmicas. Um estudo conduzido pela University of North Texas, liderado pelos psicólogos Katherine M. Hertlein e Brian J. Drouin, identificou que o uso intenso de aplicativos de relacionamento está associado a maiores níveis de ansiedade, insegurança emocional e preocupação constante com rejeição, especialmente entre usuários que utilizam as plataformas como principal fonte de validação afetiva.
Outra pesquisa amplamente citada, publicada no Journal of Social and Personal Relationships, aponta que a lógica dos aplicativos ativa no cérebro mecanismos semelhantes aos observados em outros comportamentos compulsivos. O sistema de recompensa intermitente — quando a resposta positiva pode ou não acontecer — estimula o usuário a repetir o comportamento, mesmo quando o prazer diminui.
A psicóloga social Jean Twenge, conhecida por seus estudos sobre comportamento e tecnologia, também alerta que a validação digital constante pode fragilizar a autoestima ao longo do tempo. Segundo ela, quando o reconhecimento vem majoritariamente de interações mediadas por algoritmos, cresce a dependência de estímulos externos para a construção da própria identidade emocional.
Para profissionais da área clínica, o ponto de atenção não está no uso ocasional dos aplicativos, mas na substituição de experiências reais de vínculo por ciclos contínuos de expectativa e frustração. O resultado pode ser um cansaço emocional silencioso, no qual o usuário permanece conectado, mas cada vez menos satisfeito.
O que dizem os profissionais de saúde mental
No campo acadêmico e clínico, os aplicativos de relacionamento passaram a ser analisados como parte estrutural do cenário emocional contemporâneo. Para muitos especialistas, essas plataformas não criam fragilidades do zero, mas tendem a amplificar inseguranças, expectativas e padrões afetivos já existentes.
Há, no entanto, um contraponto importante. Profissionais que estudam comportamento social e diversidade afetiva reconhecem que os aplicativos ampliaram as possibilidades de encontro, especialmente para pessoas tímidas, com rotinas restritas ou pertencentes à comunidade LGBTQIA+, historicamente afastada de espaços seguros de socialização presencial.
Ao mesmo tempo, esse grupo também aparece entre os mais expostos a riscos específicos, como mostram casos recentes noticiados no Brasil. Em julho de 2025, a Polícia Civil prendeu dois homens, de 34 e 37 anos, acusados de comandar uma rede criminosa no Guarujá, no litoral paullista. As vítimas eram atraídas por aplicativos de relacionamento voltados ao público LGBTQIA+, enquanto os suspeitos utilizavam documentos falsos para alugar imóveis e lucrar com sublocações irregulares, aplicando golpes e extorsões.
Meses depois, em novembro, outro caso ganhou repercussão. Um jovem de 21 anos foi preso no bairro da Barra, em Salvador, suspeito de aplicar golpes financeiros contra ao menos oito homens homossexuais. Segundo apuração da imprensa local, as vítimas, muitas delas turistas, eram atraídas por mensagens em um aplicativo de relacionamento destinado a homens gays.
Para profissionais de saúde mental, episódios como esses evidenciam que a violência associada aos aplicativos não se limita ao impacto emocional. Ela pode gerar medo, retraimento social e dificuldade de confiar novamente, sobretudo em grupos que já convivem com histórico de discriminação.
Apesar das divergências sobre benefícios e riscos, o consenso entre especialistas é claro: os aplicativos de relacionamento não são neutros. Eles moldam comportamentos, expectativas e percepções. Usados com informação e cautela, podem ampliar conexões. Ignorados seus limites e riscos, podem se tornar ambientes de vulnerabilidade emocional e social.
Entre a tecnologia e o afeto: um equilíbrio ainda em construção
Os aplicativos de relacionamento não são vilões nem soluções mágicas. Eles refletem a forma como a sociedade contemporânea lida com tempo, escolhas, validação e solidão. A questão central, segundo especialistas, não está em usar ou não usar essas ferramentas, mas em como usá-las e com que expectativas.
Em um mundo cada vez mais mediado por telas, compreender os limites emocionais dessas plataformas passou a fazer parte do cuidado com a saúde mental. O amor continua sendo humano, imperfeito e imprevisível. A tecnologia, por enquanto, ainda tenta aprender a lidar com isso.
Esse debate, no entanto, começa a avançar para um novo território. Além dos aplicativos de relacionamento, a inteligência artificial já dá sinais de que ocupará um espaço ainda mais íntimo na vida das pessoas. Assistentes virtuais capazes de simular empatia, atenção e vínculo emocional vêm sendo descritos por pesquisadores como uma nova geração de “máquinas de amor”, sistemas projetados para oferecer companhia, escuta e validação contínua.

Crédito da imagem: Sherry Turkle, professora e pesquisadora do MIT. Fonte: arquivo pessoal / MIT
A socióloga e pesquisadora Sherry Turkle, professora do MIT, é uma das vozes mais influentes nesse debate. Em seus estudos sobre tecnologia e relações humanas, Turkle alerta que, embora essas ferramentas possam aliviar a solidão momentânea, elas não substituem a complexidade da conexão humana real. Para ela, relações mediadas por máquinas oferecem conforto sem risco, mas também sem profundidade.
Profissionais que combinam neurociência, terapia somática e prática clínica reforçam esse ponto ao lembrar que apenas a interação presencial é capaz de criar a chamada sincronia entre sistemas nervosos — um ajuste fino entre corpo, emoção e percepção que é considerado essencial para a saúde mental e física. Esse tipo de regulação emocional não acontece plenamente por meio de telas ou algoritmos, por mais sofisticados que sejam.
À medida que tecnologia e afeto se entrelaçam de forma cada vez mais profunda, o desafio deixa de ser apenas encontrar alguém, seja em um aplicativo ou em uma interface de IA. Passa a ser preservar aquilo que torna o vínculo humano insubstituível: presença, imperfeição e reciprocidade real.



