Palestinos de Gaza se reerguem na Cidade do México por meio da alimentação
Palestinos de Gaza se reerguem na Cidade do México por meio da alimentação
Reuters
02/10/2026
Por Diego Oré
CIDADE DO MÉXICO, 2 Out (Reuters) - Ruídos altos ainda causam ansiedade a Mohammed Abed, um engenheiro de sistemas palestino de Gaza. Os aviões que cruzam o céu da Cidade do México e o estrondo dos trovões de verão evocam lembranças da campanha de bombardeios israelense de 2025 em Gaza, onde um ataque aéreo matou sua filha de 4 anos.
O homem de 36 anos chegou ao México na primavera passada com 17 familiares em busca de asilo. Hoje em dia, as manhãs de terça-feira não começam com medo de bombardeios, mas com trabalho. Antes do nascer do Sol, ele carrega seu triciclo motorizado com comida palestina para vender em um mercado ao ar livre em Condesa, um dos bairros mais cosmopolitas da capital.
Abed é um dos cerca de 160 palestinos que vivem no México, parte dos quase 1,9 milhão de pessoas deslocadas de suas casas desde o início da guerra em Gaza, em 2023. A maioria permanece no território e muitos dos que partiram se estabeleceram nos vizinhos Egito e Jordânia. Mas uma pequena fração chegou ao México, ajudando a praticamente dobrar a população palestina do país desde 2022, segundo dados oficiais.
“Em Gaza, durante a guerra, ouvir um avião significava que algo terrível poderia acontecer a qualquer momento”, disse Abed durante um intervalo na venda de homus, baba ganoush, falafel, shawarma e kebab. “O som me faz lembrar de tudo o que passamos, e meu corpo reage antes mesmo que eu consiga pensar.”
A trajetória de Abed até o México foi sinuosa.
Tudo começou com seu pai, Kamal Abed, um palestino que emigrou para o México há mais de uma década para fugir do conflito em Gaza e acabou obtendo a cidadania mexicana. Após o início da guerra em Gaza, Kamal lançou uma campanha para tirar sua família do enclave.
Em 2024, Kamal viajou para o Egito para tentar organizar a retirada da família, mas morreu de um ataque cardíaco antes de conseguir concluir o processo. Outro filho, Shadi, irmão de Abed, assumiu a tarefa e, com o apoio de organizações civis e advogados especializados em asilo no México, conseguiu autorização de viagem para 18 membros da família, incluindo várias crianças.
Após meses de burocracia e negociações para deixar Gaza, a família cruzou a fronteira com a Jordânia, passou pela Turquia e finalmente chegou à Cidade do México em maio de 2025, onde todos obtiveram residência permanente.
“Não gosto de política”, disse Abed. “Quero viver, como todo mundo, em paz.”
Aos poucos, Abed tornou-se conhecido entre os clientes que apreciam seus pratos e se emocionam com sua história. Aos domingos, ele vende seus produtos em outro mercado na Cidade do México e, quando não está lá, ajuda a esposa a preparar banquetes de comida palestina que ela oferece para ocasiões especiais.
O irmão mais novo de Abed, Fadi, também vende comida palestina na Cidade do México. Com sua personalidade exuberante, ele conquistou 48 mil seguidores no Instagram sob o nome de usuário hijo.de.palestina, postando vídeos de seu crescente negócio de comida em um espanhol com sotaque forte.
A família de Abed continua crescendo. Ele está tentando trazer suas duas irmãs de Gaza. E, em maio, seu filho mais novo, Yusuf, nasceu na Cidade do México, o que automaticamente o tornou cidadão mexicano.
“Ele nasceu no México, mas carrega as raízes de Gaza no coração”, disse Abed.
Reuters

