RELÓGIOS INTELIGENTES GANHAM ESPAÇO NO MONITORAMENTO DA SAÚDE DO CORAÇÃO
Pesquisas analisam dados de relógios inteligentes para identificar mudanças associadas à hipertensão e a problemas cardíacos
Bruna Valle
30/09/2026
O relógio inteligente que acompanha passos, batimentos e atividade física também está se tornando uma fonte de dados para a pesquisa médica. Estudos publicados em 2026 indicam que informações coletadas por smartwatches podem ajudar pesquisadores a acompanhar mudanças relacionadas ao risco cardiovascular fora do consultório.
As pesquisas analisam situações diferentes: de pessoas inicialmente sem hipertensão a pacientes que já convivem com insuficiência cardíaca. E, reforçam a possibilidade de que dados obtidos no dia a dia podem complementar avaliações feitas em consultas.
Sinais que aparecem antes da hipertensão
Um estudo publicado em junho na revista BMC Cardiovascular Disorders acompanhou 230 adultos de 30 a 60 anos que não tinham hipertensão durante 12 meses.
Os participantes usaram smartwatches capazes de registrar informações como variabilidade da frequência cardíaca, frequência cardíaca em repouso e nível de atividade física. Ao final do acompanhamento, 28 pessoas haviam desenvolvido hipertensão.
Os pesquisadores observaram que os participantes que desenvolveram a doença apresentavam, no início do estudo, menor variabilidade da frequência cardíaca e menos tempo dedicado a atividades físicas de intensidade moderada ou alta.
Modelos estatísticos também apontaram associação entre esses dados e o desenvolvimento de hipertensão. Mas há uma ressalva importante: o trabalho é observacional. Portanto, os resultados mostram uma relação entre os indicadores registrados pelo relógio e o risco observado, mas não provam que o dispositivo consiga prever ou evitar a doença. Os autores defendem estudos maiores e validação em outros grupos.

Dados coletados por dispositivos vestíveis podem complementar o acompanhamento da saúde cardiovascular
Quando o relógio acompanha pacientes com insuficiência cardíaca
Outro estudo, publicado em março na revista Nature Medicine, foi além do acompanhamento de pessoas saudáveis. Os pesquisadores analisaram dados de 217 pacientes com insuficiência cardíaca que participaram de um estudo com Apple Watch.
A equipe criou um modelo de aprendizado profundo capaz de estimar diariamente a capacidade de consumo de oxigênio dos participantes a partir dos dados do relógio. A estimativa apresentou forte correlação com os resultados obtidos em testes cardiopulmonares realizados em ambiente clínico.
O dado mais relevante apareceu quando os pesquisadores observaram a evolução dessa medida ao longo do tempo. Uma queda de 10% na estimativa diária de capacidade aeróbica esteve associada a um risco 3,62 vezes maior de eventos que exigiram atendimento de saúde, com esses eventos ocorrendo, em média, 7,4 dias depois da primeira queda identificada no grupo analisado.
O resultado também foi testado em uma segunda base de dados, do programa All of Us, nos Estados Unidos. Nessa validação, a queda na medida também esteve associada a maior utilização não planejada de serviços de saúde, com os eventos ocorrendo, em mediana, 21 dias depois.
Uma janela para observar o coração no dia a dia
A diferença desse tipo de tecnologia está na quantidade de informações que pode ser coletada fora do ambiente médico.
Em vez de depender apenas de uma medição realizada durante uma consulta, os pesquisadores conseguem observar tendências ao longo de dias e semanas. Isso pode ajudar a identificar mudanças que merecem ser investigadas por profissionais de saúde.
No estudo da Nature Medicine, por exemplo, o objetivo não era fazer um diagnóstico pelo relógio, mas avaliar se alterações nos dados poderiam ajudar no acompanhamento remoto de pacientes com insuficiência cardíaca.
Um estudo ainda maior olha para as artérias
Publicado em 28 de setembro, outro trabalho ampliou ainda mais a escala dessa investigação. A pesquisa, divulgada pela revista Frontiers in Cardiovascular Medicine, analisou dados de 165.549 usuários de smartwatches na China.
Os pesquisadores avaliaram a chamada velocidade da onda de pulso, uma medida relacionada à rigidez das artérias e estimada pelo relógio por meio de algoritmos. O indicador apresentou associações com idade, índice de massa corporal e fatores como hipertensão, diabetes, alterações de colesterol, doença coronariana, acidente vascular cerebral e placas nas artérias carótidas.
O estudo, porém, também tem uma limitação importante: é transversal, ou seja, analisa os dados em um determinado período e não acompanha a evolução dos participantes ao longo do tempo. Os próprios autores afirmam que são necessários estudos longitudinais e comparações diretas com métodos convencionais antes de qualquer aplicação clínica.
O relógio não substitui a consulta
Os três trabalhos apontam para uma mesma possibilidade: smartwatches podem funcionar como fontes contínuas de informações para pesquisas e acompanhamento de saúde, especialmente quando os dados são analisados ao longo do tempo.
Isso é diferente de afirmar que o aparelho consegue diagnosticar hipertensão, insuficiência cardíaca ou outras doenças. Os estudos mostram associações e possibilidades de monitoramento, enquanto a confirmação de uma condição de saúde continua dependendo de avaliação médica e métodos clínicos apropriados.
A tendência, portanto, é que os relógios inteligentes deixem de ser vistos apenas como acessórios para contar passos e registrar exercícios. Com a evolução dos sensores e dos modelos de análise, eles podem se tornar mais uma fonte de informações para entender como o organismo muda entre uma consulta e outra.


