ROUND HILL PROCESSA SUNO E ANTHROPIC
EDITORA ACUSA EMPRESAS DE USAR MILHARES DE MÚSICAS SEM LICENÇA NO TREINAMENTO DE IA
João Carlos
19/08/2026
A disputa entre a indústria da música e a inteligência artificial ganhou um novo capítulo bilionário. A Round Hill Music entrou com processos separados contra a plataforma musical Suno e a Anthropic, criadora do chatbot Claude, acusando as empresas de utilizar obras protegidas por direitos autorais sem autorização.
As ações foram apresentadas na Justiça Federal da Califórnia e começam com uma relação de 500 músicas, mas a Round Hill pretende ampliar os casos para mais de 10 mil composições e gravações. Entre as obras citadas estão sucessos ligados a Goo Goo Dolls, James Brown, The Kinks e Bonnie Tyler.
Por que o processo pode superar US$ 1 bilhão?
A Round Hill afirma que músicas e letras de seu catálogo foram copiadas para treinamento dos sistemas de IA. No caso da Anthropic, a acusação se concentra principalmente no uso e armazenamento de letras para desenvolver o Claude. Contra a Suno, o processo envolve também gravações utilizadas no treinamento de uma tecnologia capaz de gerar músicas completas.
A empresa Bright Data também aparece como ré na ação contra a Suno. Segundo a acusação, suas ferramentas teriam sido utilizadas para facilitar a coleta em larga escala dos conteúdos.
Pela legislação norte-americana, violações intencionais de copyright podem resultar em indenizações de até US$ 150 mil por obra. Se milhares de músicas forem incorporadas aos processos e as infrações forem reconhecidas, cada ação poderá, em tese, ultrapassar US$ 1 bilhão. O valor, portanto, não representa uma indenização já determinada pela Justiça.
Anthropic já enfrenta outras gravadoras
A nova disputa se soma a uma série de processos contra a Anthropic.
Desde 2023, editoras ligadas à Universal Music Group, Concord e ABKCO acusam a companhia de utilizar letras protegidas no treinamento do Claude. O caso envolve músicas associadas a artistas como Beyoncé, Rolling Stones e Katy Perry.
Em janeiro de 2026, Universal, Concord e ABKCO abriram outra ação, afirmando que mais de 20 mil músicas teriam sido obtidas sem autorização. A indenização potencial apresentada pelos autores supera US$ 3 bilhões. A BMG Rights Management também processou a Anthropic em março, envolvendo centenas de obras.
A Anthropic contesta as acusações e tem defendido que o treinamento de modelos de inteligência artificial pode estar protegido pelo conceito norte-americano de fair use, ou uso justo. A questão ainda está sendo discutida nos tribunais.
OpenAI enfrenta discussão semelhante
A batalha sobre direitos autorais ultrapassa a música. O The New York Times mantém desde 2023 uma disputa judicial contra a OpenAI e a Microsoft pelo suposto uso não autorizado de artigos no treinamento de sistemas de IA.
A OpenAI rejeita as acusações e sustenta que o treinamento com materiais disponíveis publicamente pode constituir fair use. Ao mesmo tempo, a empresa adotou outra estratégia com parte da imprensa, fechando acordos de conteúdo com grupos como Associated Press, Axel Springer, News Corp, Le Monde e Prisa Media.
Na contramão dos processos, gravadoras também tentar incorporar a tecnologia
Na música, processos e acordos comerciais avançam simultaneamente.
Universal, Sony e Warner fecharam acordos de licenciamento com a startup KLAY, cujo modelo musical foi desenvolvido com repertório autorizado. A Warner também resolveu suas disputas com Suno e Udio por meio de acordos que preveem novas experiências de IA baseadas em conteúdo licenciado.
Mais recentemente, a BMG, apesar de manter seu processo contra a Anthropic, anunciou uma parceria global com a Suno para utilização autorizada de gravações e composições de artistas participantes.
A estratégia revela uma transformação importante no mercado: as grandes companhias musicais não estão necessariamente tentando impedir o avanço da IA na música. A batalha é para definir quem pode utilizar as obras, como esse conteúdo será licenciado e quanto artistas e compositores receberão por ele.
Os processos da Round Hill podem ajudar a responder justamente essas perguntas e estabelecer novos limites para a relação entre direitos autorais e inteligência artificial.


